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Historial

No ano de 1852 foi constituída nesta Vila de Palmela a primeira Colectividade Musical. Em anos anteriores costumavam tomar parte nas procissões que se realizavam em Palmela, grupos de músicos vindos de Setúbal, chamados "guerrilhas", a convite dos mesários das diversas Irmandades existentes. Essas "guerrilhas" apresentavam um aspecto tão inferior que se tornavam ridículas e irrisórias, não só pelo aspecto e compostura, como também pela inferioridade e pobreza da execução. Esta importante circunstância suscitou aos grandes desta Vila e nobre terra de belas tradições históricas, o desejo de organizar em Palmela uma banda Filarmónica.

Esta ideia foi tomando força pelo facto de, pelos anos de 1848 a 1852 começar a vir abrilhantar as ditas procissões uma pequena banda a que chamavam "Voluntários da Guarda Nacional", que melhor satisfazia os desejos dos organizadores do que as chamadas "guerrilhas". Essa pequena Banda era dirigida pelo afamado professor de música de nome José Cipriano Arronches, que veio a ser avô materno do ilustre setubalense António Casimiro Arronches Junqueiro.

Essa suposta banda musical viera para Setúbal por ocasião da guerra da Patoleia, cujo golpe decisivo teve lugar na Serra do Viso, em 1 de Maio de 1847 dando a Vitória às forças da Rainha Dona Maria II.

O referido professor, pessoa de fino trato e muito distinto, com facilidade conquistou as simpatias dos palmelenses e assim resultou, que em dada altura, se trocassem conversações no sentido da viabilidade de se formar aqui em Palmela, uma Filarmónica que seria dirigida pelo mesmo Senhor Arronches, convite que lhe foi feito e prontamente aceite com especial agrado.

Foram tão satisfatórias as diligências feitas, que no dia 25 de Outubro de 1852 se realizou urna reunião em casa de Joaquim José Correia, na Rua de Santo António a cuja sessão assistiu o Sr. José Cipriano, ficando desde logo fundada a Associação Musical que foi dada o título de Sociedade Filarmónica Palmelense.

As lições aos aprendizes de música tiveram logo o seu início, impulsionados e coadjuvados pelo sócio Joaquim Gualdino de Almeida, cantor e antigo músico de Azeitão.

Após alguns meses encetaram os ensaios numa casa pertencente a João José Salgueiro, situada no Largo da Boa Vista e na noite de 23 de Junho de 1853, o Director da Banda comunicou à Direcção da Sociedade que a Filarmónica já se achava apta para poder realizar a sua primeira exibição em público, podendo desde logo marcar-se o dia dessa primeira saída.

A Direcção da Sociedade em reunião conjunta com os sócios, congratulou-se com o facto e foi logo marcado o dia de São Pedro, 29 de Junho desse mesmo ano para esse fim.

As manifestações de regozijo foram gerais, pois todos ansiavam por essa estrela. Efectivamente no dia 29 de Junho de 1853 a Banda da Sociedade envergando o seu bonito fardamento composto de casaco e calça de veludo verde e encarnado saiu da sede para a Igreja executando, pelas ruas da Vila, uma marcha da autoria do seu mestre e na Igreja, após o concerto, estreou o seu hino, também da autoria do seu maestro, o que comoveu todo o povo da Vila até às lágrimas, por ouvir e ver na Igreja da sua terra, pela primeira vez, tocar uma música propriamente sua.

Foi com imensa alegria que a povoação rejubilou por ser levado a efeito aquele empreendimento que os seus antepassados não lograram gozar.

A música e recreio estavam instalados para dimanarem a alegria e o progresso.
Dentre aquele punhado de bons palmelenses que levaram à evidência a maior, aspiração daquela gente, salientava-se a figura ilustre de António Carlos dos Santos, o principal lutador que viu realizado o seu sonho. Esse grande homem de ciência apesar da diferença social que separava dos outros, não teve dúvida em se alistar como aprendiz de música, tornando-se um colega humilde entre os seus amigos.

Outro fundador houve que também teve uma acção digna de nota.
O grande amigo de Palmela - onde nasceu e viveu - o Sr. Miguel Carlos Maria de Almeida e Silva, prestimoso em tudo na sua Sociedade.

Sim, porque com as virtudes destes ilustres homens de bem é que foi possível levar por diante esse engrandecimento para a sua terra. Por isso, com justificada razão, aquele dia foi considerado um dos melhores dias da sua vida.

Nesse dia, pois, a Sociedade saindo da Igreja tocando, dirige-se para a Quinta do Piloto, onde foi servido um jantar de confraternização, comemorando o acontecimento e a inauguração da Banda em público, cozinhado pelo especialista em culinária Luís Inácio de M. Furtado.

A Sociedade foi progredindo e no ano seguinte festejou o seu aniversário na Quinta do Carvacho, tendo já nesse tempo elaborados e aprovados os seus estatutos.

Neste espaço de tempo a Sociedade e a sua Banda estavam legalmente constituídas e viviam em pleno progresso.
No ano de 1855 ressentiu-se pela brusca saída do nosso Concelho para Setúbal. Palmela e seu território foram anexados a Setúbal e este facto refreou um pouco o entusiasmo bairrista que se vivia à volta da Colectividade.

Em 1856 foi esta Vila assolada pela epidemia do "cólera rnorbus", roubando à Sociedade a simpática figura de Francisco Augusto Palva, que era uma grande esperança em clarinete.

Nesse mesmo ano teve a mesma sorte outro executante de clarinete, Luís Inácio (filho), vitimado não pelo "cólera morbus" mas sim pela febre amarela que grassava em Lisboa. Mais tarde, mais duas baixas se seguiram: O corneta de chaves, João Trinca e o caixa Joaquim Venâncio.

Nos três anos seguintes - 1857, 1858 e 1859 pode a Sociedade levar a efeito a função dos Reis Magos de visita ao presépio de cujas solenidades foi o seu primeiro fautor, Miguei Maria da Silva.

Estes festejos que tiveram um retumbante êxito, traziam a Palmela centenas de forasteiros que admiravam esta simpática manifestação.

Esta terra, por intermédio da Sociedade, elevava-se no seu timbre, por tão faustosas festas que eram lembradas com saudade pelos sobreviventes desse tempo.
Nesta altura, a Banda da Sociedade já tinha novo fardamento, que constava de fraque preto, boné da mesma cor e lira amarela.

Também nesta altura saem da Sociedade, por divergências, os fundadores Francisco José Pardelha e Joaquim Nunes da Silva.
Em 1862 morre um dos melhores elementos da Colectividade, Joaquim Gualdino de Almeida, sentindo-se com muito pesar tão inesperada morte.

Em 1864 dá-se uma verdadeira derrocada, que deixou mal ferida a Sociedade e especialmente a sua banda, que durante três anos ficou inactiva.

Contemos o caso tal qual se passou: Surgiu nessa altura uma corrente de filarmónicos que manifestaram o seu desacordo pela continuação na regência da Banda do maestro José Cipriano, em virtude da sua permanência trazer à Sociedade uma despesa incomportável com as possibilidades económicas dessa época.
Por isso, aquele grupo que era maioritário, opinava que para o lugar de mestre fosse nomeado José Ferreira Sardinha, filho da terra e já experimentado músico, cujas habilitações as obtivera em Setúbal, onde trabalhava de marceneiro.

Então, por iniciativa desse grupo de maioria, realizou-se uma reunião extraordinária para esse fim, tendo sido delegado desse grupo para expôr a razão daquele descontentamento o sócio Leopoldo Peres.
O Presidente da Sociedade - António Carlos dos Santos, discordando das razões apresentadas, declarou que ao Maestro José Cipriano se deviam os progressos porque a Sociedade tinha passado e não tinha coragem para propor ao mestre o seu despedimento. Apenas poderia fazer o seguinte: Era demitir-se da Sociedade e o grupo que encarregasse o novo Presidente dessa ingrata missão. Com esta decisão, seguiu-se uma certa discussão, surgiram opiniões divergentes e todos se levantaram como se uma mola os movesse, pondo todos os chapéus na cabeça.

As portas fecharam-se, ficando lá dentro a pancadaria e alguns instrumentos. (Vidé acta de 13 de Setembro de 1864). Esta divergência coincidia com a eleição do Dr. Aníbal para deputado pelo círculo, dizendo-se que, quando o candidato viesse a esta Vila solicitar as influências eleitorais, a Banda viria esperá-lo. A referida maioria alegava, como desculpa, não querer ir tocar atrás de "rabos de cavalo". O proposto deputado chegou em determinado dia, mas a música não compareceu.

Reuniu-se muita gente para receber o futuro dirigente político, erguendo-se um arco triunfal enfeitado de louro, no Largo do Município e o facto de não ser esperado pela música, mais acirrou os ânimos, ficando assim paralisada e inactiva a Banda da Sociedade Palmelense. E assim ficou dissipada a ténue esperança de uma harmonia e consequentemente a reconciliação das partes discordantes.

Começou aqui o interregno da actividade da Banda da Sociedade Filarmónica Palmelense por cerca de três anos, pois em reunião de 9 de Junho de 1867, na sala do Teatro, sob a Presidência do Prior António José Costado Caetano da Paz Brandão se formou nova direcção para prosseguimento e formação de nova Banda, integrada de novos elementos.

A maioria dissidente após estes factos não pensara, de forma alguma, formar nova Banda. No entanto, os dias iam passando. Aos serões, cada qual apresentava a sua conjectura e não se chegava a urna conclusão para desatar o "nó górdio".

Porém, um dos membros do grupo, talvez mais empreendedor, acercou-se um dia do grupo e propôs que seria bom ir-se ter com o Pardelhas a expor-lhe o que se passara na sessão e convidando-o para presidir a uma nova sociedade, levando-se a efeito também a nomeação de José Ferreira Sardinha para mestre, explorando assim a divergência havida entre o Pardelhas e o António Carlos dos Santos.

O alvitre foi aceite e apoiado por todos e nessa noite, exposto o problema ao Pardelhas, este bastante envaidecido pela sugestão, admitiu logo a hipótese apresentada, sem que apresentasse a dificuldade do facto de não haver casa para ensaios. A este pequeno argumento objectou logo o membro João Augusto dos Santos dizendo que já tinha falado com o pai e que este da melhor boa vontade cedia a casa onde residia para esse fim.

O Sr. Pardelhas exultou e prevendo que com a sua anuência ia dar um "cheque mate" no seu antagonista António Carlos dos Santos, de quem estava afastado há cinco anos, disse que aceitava o cargo mas que se tornava necessário fazer-se uma reunião de todos os elementos favoráveis à causa, ficando marcada para o dia 8. Efectivamente no dia 8 de Outubro de 1864, não tendo faltado nenhum dos afeiçoados, o Sr. Pardelha presidiu à assembleia declarando que o fim daquela reunião seria para formar uma sociedade nova e não reorganizar a sociedade velha, devendo esta ficar ali fundada e com o seu competente título.

Muitos dos assistentes entreolharam-se desconfiados, porque não aquele o verdadeiro fim da reunião, todavia ficaram silenciosos mas depois da nova banda formada, dela não quiseram fazer parte os elementos, Leopoldo Peres, Feleciano Marques, Isidoro Faustino, Joaquim Cabica, Joaquim Brazão, etc... A sessão no entanto prosseguiu tendo sido aprovada a constituição de nova sociedade a que foi posto o titulo de Sociedade Filarmónica Humanitária e Independente.

A Direcção foi logo escolhida e nomeada ficando o Sr. Pardelhas como presidente e José Ferreira nomeado director da banda, como a princípio se tinha sugerido, declarando logo que aceitaria o cargo, acrescentando que prestaria todos os seus serviços gratuitamente durante um ano.

E assim surgiu em Palmela a Sociedade Humanitária e Independente, cuja banda teve a sua primeira saída, ainda muito reduzida de elementos, no dia de Todos-os-Santos - 1 de Novembro de 1864, saindo da sua sede provisória para a Igreja, regressando em seguida para uma casa do Sr. Pardelhas no páteo da Rua do Chafariz, onde se conservou até ao ano de 1892.

Entretanto surgiram logo divergências com o mestre José Silvestre Ferreira Sardinha pelo que no ano de 1865 este foi afastado da Humanitária.

Este porém teve logo em mira ir procurar o núcleo que estava afecto à Palmelense e se encontrava inactivo, no sentido de animar o sentimento musical e formar com outros elementos a reorganização da Banda sob a sua, orientação. E tanto forjaram e concertaram que em 1867, no dia 9 de Junho - teve lugar na casa da Câmara onde a Palmelense se ensaiava, uma reunião de sócios que ainda se conservavam unidos à Palmelense, cuja acta dessa Assembleia é do teor seguinte: "No dia 9 de Junho de mil oitocentos e sessenta e sete, na sala do Teatro, estando reunidos os Senhores, Prior António José do Costado, Caetano da Paz Brandão, Joaquim António de Paula Ataz, António Carlos dos Santos, Feleciano Marques Guerreiro, Joaquim José Brazão, Joaquim José Correia, Sezinando Augusto da Silva, Joaquim Tomaz Ferreira, José Fernandes, José Silvestre Ferreira Sardinha, Isidoro Augusto de Carvalho - (Faustino), Leopoldo Ferreira Peres, Manuel Dinis, Manuel Peres Gonçalves, Salvador Caetano da Costa e Salvador Augusto Rodrigues, os quais todos tinham acedido ao convite que se lhes fez corno sócios da Sociedade Filarmónica Palmelense criada e fundada em 25 de Outubro de 1852, que por divergências de alguns sócios que a compunham se tinham desunido, indo uma grande parte formar uma outra sociedade e, sendo vontade dos antigos sócios, que ficaram na minoria, restabelecer de novo a Sociedade Filarmónica Palmelense, por isso tinham convidado todos os presentes para este fim. E tomando a presidência o Sr. Prior António José Costado e os lugares de secretários António Carlos dos Santos e Caetano da Paz Brandão, pelo Sr. Presidente foi dito que a primeira coisa a fazer era nomear uma direcção para esta intervir nos negócios da Sociedade e que necessitando os estatutos feitos em 13 de Novembro de 1853 de algumas alterações nos capítulos de que se compunham e mesmo do adicionamento de alguns novos para o bom regimen da Sociedade, propunha que os membros da nova direcção fizessem as alterações e adicionamentos que os antigos estatutos precisassem e que depois fosse convocada a Sociedade para em vista dos mesmos estatutos, assim alterados e modificados, sofressem as alterações que se julgarem convenientes. Esta proposta foi aprovada por unanimidade.

E procedendo-se à eleição da Direcção por escrutínio secreto, saíram quase por unanimidade eleitos para Presidente, António Carlos dos Santos, Tesoureiro - Joaquim José Correia e Secretário Leopoldo Ferreira Peres, os quais foram pelo Sr. Presidente proclamados membros da direcção da Sociedade.. E não havendo mais nada a tratar levantou a sessão e mandou, para constar, lavrar esta acta por mim António Carlos dos Santos que a escrevi."

Em virtude, pois, das ponderações ali exaradas, evidentemente se patenteia que a Sociedade Palmelense teve um interregno que não pode funcionar por falta de pessoal músico, mas logo que o obteve prosseguiu na sua com o mesmo título, a mesma direcção, o mesmo livro de actas, a. mesma bateria e o mesmo uniforme, presidindo a esta sessão o mesmo presidente que presidiu à reunião da fundação.

Assim, não poderá haver dúvidas sobre qual é a Filarmónica mais antiga. Se a Humanitária seguisse com o nome da Palmelense, muito bem. Mas não o fez!!.

Criou uma nova sociedade e tanto mais que aquela não se dera por extinta, mas sim reservando-se para melhores dias poder continuar a sua carreira. Com estes factos verdadeiros vividos no tempo e como propósito de seguir à risca o fio da história da música em Palmela, ninguém poderá pôr em dúvida que a Humanitária surgiu depois da Palmelense.

Prosseguindo a Palmelense a sua nova vida agora dirigida pelo maestro José Ferreira Sardinha que não tendo sido acolhido como mestre por pequeno número na histórica assembleia de 1864, foi agora acolhido e apoiado por unanimidade a sua admissão como mestre, tendo sido observado com propriedade o tão certo ditado popular que diz "Mil voltas que o mundo dá".

E ao cabo de tais divergências, ainda bem que tudo isto se deu, porque algo de positivo surgiu. A povoação ficou com duas sociedades, ganhando também o maestro José Ferreira Sardinha que pode iniciar o seu trabalho de ensaiador com o maior entusiasmo.

José Ferreira, na posse da batuta, começou a fazer um trabalho de fundo, mercê da sua vocação musical de verdadeiro artista, não ignorando que ia defrontar uma banda rival e que certamente lhe haviam de criar muitos obstáculos e até desgostos.

Mas em consciência, impunha-se que teria de ir em frente, nunca se esquecendo do tal rifão que diz: "Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer".

 
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